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Tu já se encostou, brother?

tu já se encostou, brother? É, assim: passou a mão em você mesmo? Porque eu acho loko que nós homens sejamos sujeitos tão corporais?—?a gente luta, joga bola, fica forte, agride as pessoas, se impõe fisicamente?—?mas a gente é completamente alienado do próprio corpo. Não se toca, conhece. É estranho: nós nos valemos do físico para se impor e agredir, mas não usamos nossa corporalidade pro nosso cuidado e prazer. Pensa aí:

você já sentiu aquela sensação horrorosa que seu pau não vai ficar duro o suficiente pra sustentar a transa? Já né? Não precisa falar, nem curte este texto pra não dar vexame. Então: e seu te disser que você não precisa do seu pau nem pra sentir nem pra partilhar prazer com ninguém?

Claro, estou falando de mamilos, sempre polêmicos, mas não só. Estou falando de entender o sexo menos como atividade física e mais como relaxamento com a outra pessoa. Sexo me parece mais legal se parece mais com uma massagem do que com uma corrida (seja maratona ou 100m, não é). Sexo como:

Um convite à descoberta da topografia de si: do deslizar de dedos que tem intensidade, textura. Das línguas, que se penetram em beijo. Você com ela. Mano, de você sozinho.

A nossa forma de aprender sexo é pavorosa. Nós somos expostos a pornografia desde muito cedo?—?e não digo pornografia violenta porque seria redundante: um sexo que é sobre marretada de pau com close em buceta, deusas: isso é inumano. Viciamos nosso tesão a um estímulo visual-auditivo permeado de coisas ruins e

cadê nosso tato?
cadê nosso carinho?

A gente diz que gosta de buceta, mas rapaz. gosta mesmo? Ou da ideia performática de um buraco que cê chama de buceta? Cê já admirou uma vulva, homem? Descobrir, com calma, a superfície de lábios, dos nuances da vulva, líquidos, com dedos, línguas olhos e carinhos? A gente é educado pensando que sexo é sinônimo de penetração. Não, rapaz, não.

A maior parte dos homens que conheço faz sexo numa mimese dessa performance pornográfica. E a gente não consegue nem entre a gente falar disso. Não falamos sobre problemas emocionais com os amigos, que dirá sexuais. É doentio este silêncio.

O mais louco são os rituais de uma masculinidade centrada no pau. Das punhetas coletivas de medição aos rituais grotescos outros, inventamos uma centralidade num órgão mijatório, válar, que é divertido mas não precisa mandar em nós. Essa centralidade no pau desloca nossa corporalidade de um jeito tão louco que não sabemos nem relaxar os ombros. Deitar e soltar o corpo. Estamos sempre fazendo força, sei lá pra que, pra quem.

Sempre tendo que querer fazer sexo. Gente. Você não é um pau. Não precisa nem agir nem pensar como se fosse. Pode querer só cafuné. Só dormir abraçado. Pode querer passar mais tempo fazendo sexo com a pele que com o pênis. Com a pele. Com o corpo todo. Abraçar, sentir a outra, o outro.

Noutro dia eu li que a maior ajuda que nós homens podemos fazer a luta por um mundo melhor é fazer terapia, encontrar espaços de cuidado de nossas fragilidades. Acho que aprendermos a sentir prazer e descobrir o corpo (nosso e de nossas parceiras/parceiros) é parte vital nisso. Ter carinho consigo mesmo. Se carinhar, cafuné de si. Não pra transar ou pra “dar prazer”. Menos obrigações e expectativas, mais demora e cuidado.

Eu ando vendo homens doentes, viciados, tristes, raivosos. Espalhando ódios e violências por aí. Sei lá, acho que se eles se fizessem mais carinho, tivessem um sexo mais sobre conexão e menos sobre performance atlética, uma agenda de prazeres menos sobre ejaculações e mais sobre cosquinhas, sei lá: acho que o mundo todo ia ser melhor.

Dá próxima vez que for bater uma punheta, rapaz, começa longe do pau, pela orelha, pela nuca, pela barriga. Sem olhar pornografia. Quem sabe cê esquece do pau e descobre que cê tem um corpo enorme pra se divertir. Quando achar companhia então, são dois corpos de parque de diversão. É magiko, irmão.

Estou convicto: se nós tratássemos o prazer nosso com a seriedade e urgência das tretas políticas, não precisaríamos de protestos contra o coiso, porque o coiso é também filhote dessa masculinidade doente que nunca encostou nos próprios mamilos.

Por: Gabriel Guarino de Almeida

Fonte: medium.com
Outros, 18.OUTUBRO.2018 | Postado em Geral
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